Conta pra mim de onde a gente se conhece. De onde vem a sensação de que sempre esteve aqui, quando eu sei que não estava. [Ana Jácomo]

Eu poderia tê-lo abraçado profundamente, e ficado dentro daquele abraço, estática por longas horas. Ainda assim iria crer que não foi o suficiente para me despedir. As despedidas são indiscutivelmente insuficientes, sempre.
O mundo inteiro pode andar com pés arrastados e a passos curtos, a noite pode demorar uma semana enquanto a lua desmaia e esquece de dar lugar ao sol, mas não importa! No segundo seguinte da despedida você sente que tudo durou pouco mais de meio segundo, ou metade da metade de quase meio segundo. Ainda assim, minha teimosia segurava sua camiseta e desenhava carinhos em suas costas. Eu queria lembrar pra sempre o seu cheiro de alecrim, quis eternizar o ar quente e denso que repousava em meus ombros. Leia o resto deste post »

Quando nasci, passei a saber da morte. Quando morrer, aí então saberei da vida; nesta ciranda de amores e cores, espelhos e reflexos, jardins e degraus. Sou reticências, para que todas as coisas venham a mim e em mim continuem… [Guilherme Antunes]

Tem dias em que você acorda e não consegue lembrar do caminho que traçou até chegar ao ponto onde está. E decide parar pra pensar quais foram as decisões que te trouxeram até aqui. Quantos sonhos não viraram realidade, quantos planos se perderam.
Sei que ainda não quitei todas as dívidas com meu passado. No final das contas a vida me parece um amontoado de pessoas, feitos roupas sujas que colocamos no cesto do banheiro. Além de tanta gente dormindo em minha mente, ficaram coisas que deixei pra fazer amanhã, que deixei pra dizer amanhã… isso tudo desde que me conheço por gente. Desde quando completei meus 13 anos. Leia o resto deste post »

Mas você eu já desisti de esquecer. Pra sempre eu vou sentir um elevador de gelo seco em todos os meus andares quando você aparece de alguma maneira.  [Tati Bernardi]

Você foi embora e continua indo embora pra sempre de mim. Porque eu ainda preciso desesperadamente daquela sua risada que me arrancava outra risada e estancava a minha preguiça danada de rir das pessoas.
Sem você meu jeito espontâneo e exótico é só um jeitinho esquisito de menina esquisita. E sem a tua presença eu volto a ler aqueles milhões de livros e a ter que resolver a minha vida, que estava tão bem enrolada em você.
Sem a tua presença eu vou secar mais rápido do que os anos que gastei fazendo regime, porque a minha vontade de continuar viva com a tua presença me fazia comer freneticamente. E meus pés não vão mais derrubar as coisas do mundo porque eu não vou querer levantar da cama. Não fará sentido amar meu jeito desastrado porque eu só aprendi a gostar de mim quando olhei pra você, me amando como se eu realmente fosse desastrada e linda.
Partiu. Foi embora. E eu fiquei mastigando o sabor amargo da tua ausência, enquanto lembrava da tua doçura olhando para o meu jeito estabanado de lidar com as coisas. Você partiu, sem que eu conseguisse conjugar o verbo amar em todos os seus tempos. Leia o resto deste post »

Dizem que aprendizado é enxergar pelo ângulo certo aquilo que você sempre soube. [Miguel Falabella]

Eu sinto uma pré-saudade, dá pra acreditar? É uma quase saudade de alguém que está quase indo, alguém que está com um pé dentro de mim e o outro fora, e daqui a pouco vai estar sabe se lá onde. Mas então eu sinto uma saudade prévia, um aviso do que está por vir. Uma lembrança das coisas que acabaram de acontecer como se eu estivesse me lembrando de anos dourados. De coisas que aconteceram há muito tempo atrás.
Eu sinto esta quase-história-de-amor em mim, como se fosse uma longa história de amor que eu vivi, cerca de 10 anos atrás. E como eu só tenho 23 anos, volto aos 13 que é a data em que me apaixonei pela primeira vez. Meu primeiro amor-infantil. Cheio de pureza e instantaneidade que nunca machucava. Onde a ausência do beijo e do toque era perfeitamente substituída por lindas cartinhas de amor escritas a mão e lápis de cor, com corações flutuantes e sorrisos feitos de três riscos. Leia o resto deste post »

O sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças.
[Augusto Cury]

O amor conta flores para entregar. Conta os passos pra chegar. Conta os dias para beijar. Conta as horas para comemorar. Conta poesias. Conta histórias. O amor conta os detalhes da felicidade. Conta sobre as canções de ninar. O amor conta a quantidade de lágrimas pra multiplicar em sorrisos. Conta sonhos pra iluminar a vida. Conta luzes para clarear os dias. Amor conta abraços e soma. Amor conta carinhos para dar mais. Amor conta árvores pelo caminho. Amor conta nuvens. Conta balas, sorvetes, bombons para dividir. Conta vitórias. Conta conquistas. Conta esperanças e une todas elas. Amor conta os desejos. Conta os bons motivos para permanecer. Conta pensamentos do bem que pode vir a ser. Conta datas especiais. Conta os bilhetes de afeto. Conta os dias que faltam para o aniversário. O amor conta todas as coisas boas e insolúveis. Em contrapartida, mais bonito do que contar tudo isso: O amor não conta cromossomos.

Camila Heloíse

21 de Março – Dia Internacional da Síndrome de Down.

A síndrome de Down é conhecida também como “Trissomia do Cromossomo 21″, por causa do excesso de material genético do cromossomo 21, que ao invés de apresentar dois cromossomos 21 o portador da Síndrome possui três.


Partira para além da fronteira sabendo que poderia nunca mais voltar. Ele levara uma mágoa, trouxera um sonho. E era um sonho de embelezar futuros. [Mia Couto]

Desapareceu. Assim, como as noites desaparecem em determinada hora depois de uma madrugada de um azul anil intenso. Sem se despedir, sem dar chance de que alguém se despedisse, ele foi embora com suas botas de combate, com seu caderninho e um lápis de cor que usava pra enfeitar sonhos. Talvez até tenha pensado em ficar, talvez quisesse ficar. Não era o orgulho, não era o medo de sucumbir. Era medo de ser de alguém, de pertencer a um corpo que não fosse o seu, de sentir coisas que iam além do seu controle, além do seu entendimento. O medo era de deixar de ser tão incrível por ter sido sempre intocável, tão bonito por nunca ser descoberto por ninguém, tão inspirador por ser mistério. Talvez, ficar o pusesse de cara com o chão. De cara com o espelho.
Ficar, talvez o fizesse entender e descobrir que ele era humano. E apesar de gastar tanta inspiração, era bem menor do que suas palavras. Que suas mãos habilidosas eram somente duas mãos habilidosas de um poeta comum, que nada mais é do que um homem de verdade, por trás das palavras e dos papéis. Que suas pernas, apesar da capacidade incrível de locomoção silenciosa e ligeira, eram duas pernas de um homem comum. Talvez ele fosse entender que o que o cobre, além das tuas próprias histórias e fantasias, era uma pele, tão sensível como uma pétala, tão vulnerável ao frio. E que aquilo dentro do peito fazendo barulho, era um coração batendo, fraco como o coração de um homem de verdade. Intenso como o coração de um homem apaixonado de verdade. Imprevisível como um coração de um homem de verdade.
Mas preferiu sair de cena. Retirar-se com a beleza de um pôr-do-sol para nunca deixar de ser poesia. Com lágrimas pateticamente ensaiadas para nunca deixar de ser incrível. Fez parecer que saía levando consigo a coragem maior de todos os tempos, para não se admitir descoberto, para não se sentir estupidamente revelado.
Mal sabia ele, que embora todo aquele sonho inventado vestisse aquela moça de forma tão perfeita. Que embora aquela doçura toda, feita de balés e palavras combinadas embalasse tão bem as noites dela, o que ela esperava mesmo, era o momento exato para amar um homem comum de verdade.

Camila Heloíse

Bom, ás vezes a vida é dura, mas eu tenho muita coisa para agradecer.
A cabana

Despedi-me e distanciei-me de tudo no mundo. Muda, me encolhi. Desnuda, me acolhi.
Num chão frio de um banheiro imundo, chorei insatisfações.
Esvaziei-me até que vida me devolvesse o ar. Te abandonei, adeus. Abandonei-me, à Deus.
Agora não estou na Terra, agora estou na vida.

Camila Heloíse

Abraça o que te faz feliz, ainda que seja só uma ideia ou uma intenção. Pouca coisa vale mais que coisa nenhuma. 

Daqui despeço-me das angústias. Que todas elas se desmanchem, ainda que lentamente, e se descolem da minha retina.
Que meus gestos a partir de agora, sejam breves e felizes, e que todos os espaços sejam preenchidos de tudo de maravilhoso que vivi e me trouxe de pé até este ponto. Inevitavelmente, foram tantos estragos e dentro do peito ficaram espalhadas desilusões e incontáveis fracassos.
Mas daqui, agora, levanto uma das mãos com o olhar mais sereno que posso e me despeço das mentiras que não pude notar. Enquanto acreditei em cada uma delas, me desfazia do meu melhor tirando as cores da face como quem destrói uma flor, pétala por pétala. Até ao fim do dia, me deparar com tudo que me tirava o alívio da alma e entender, que o que nos mantém no chão frio de um sonho compartilhado e não correspondido, nada mais é do que o medo de uma rejeição. Que pode partir de nós, do outro ou até mesmo do próprio sonho.
Ainda que pareçam infinitas as dúvidas que nos atiram ao acaso, elas terminam. Como um pôr-do-sol que leva embora todo o calor insuportável do dia trazendo uma noite fresca, mas sim, elas recomeçam diariamente, porém são dúvidas novas que nos permite ser capaz de conduzilas.
Foi preciso ficar cansada, chegar ao limite da exaustão do sentimento, gastar a energia dos passos, dos abraços e das orações para que enfim me deixasse invadir por um desapego que pudesse me trazer a tona. Assim, neste instante às margens de mim mesma, me despeço da euforia antes enganada e dou boas vindas ao que vier de flores novas.

Camila Heloíse

O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. [F. Carpinejar]

Primeiro: Ser. Segundo: Amar. Ou amar tão forte que isso ocorra antes do ser. Tão violento que segure as asas antes de tentar se quer o primeiro vôo. Tão barulhento que engula o sono como uma bala de coco. Amar é precipitar-se. E antes da dúvida, questionar-se. E por não haver ainda a dúvida se quer, não responder-se. E então, quando ela enfim aparece, mergulhar num oceano da ausência de explicação de si mesmo. Talvez do amor eu saiba tudo. E saiba tanto que não me reste tempo para amar. Saiba tanto que não me reste coragem para encará-lo. E assim, tão tecnicamente amando, tão teoricamente o descrevendo, tão (falsamente) entendida de suas questões, vez ou outra eu bagunce a ordem das coisas pra fazer surpresa para o coração, e perder o medo, e mudar o foco, e desintegrar a faculdade anônima do amor na qual me pus a formar.
Amor é isso, amor é aquilo, amor é nada. Talvez amor seja a imensidão das ações mal planejadas de cada um de nós.Talvez do amor eu saiba tudo e ele é quem não me saiba.

Camila Heloíse

O amor poderia ter sido uma matéria da quinta série. Assim, eu juro, sentaria a bunda na cadeira e estudaria dias a fio, até os dedos ficarem calejados, até gastar todas as canetas do mundo. Me tornaria a primeira da sala, aquela nerd de camiseta larga e calça de moletom, as melhores notas, os melhores trabalhos. Ainda me prestaria a apresentar no final do ano pesquisas sobre o amor, ainda que não me valesse nota alguma. E certamente teria escolhido o amor como faculdade, especialização, mestrado e doutorado. E daria palestras explicando o porquê de cada coisa do amor que nos belisca, machuca, incomoda, tira a fome e que transborda.
Se o amor tivesse sido mesmo uma matéria, assim, com os olhos vidrados na lousa, eu usaria óculos desde os 7 ou 8 anos de idade, de tanto que teria lido sobre ele, do tanto que teria me entregado, da miopia tremenda que teria me atingido. Talvez tivesse renite por respirar muito o pó do giz do professor, talvez tivesse anemia por ter ficado mais tempo estudando do que me alimentando. Talvez não tivesse amigos por me dedicar tanto ao estudo (talvez tivesse um coração inteiro hoje em dia).
Se o amor tivesse sido explicado na escola, talvez eu não tivesse partido tantas vezes meu coração. Se tivesse aprendido as métricas do amor, não permitiria o choro virar soluço, o soluço virar falta de ar, a falta de ar virar falta de esperança e assim vai. Teria medido as menções, teria medido tempo e espaço e as probabilidades daquilo dar certo.
O amor poderia vir em almanaques, poderia existir um dicionário com suas milhões de páginas explicativas, com milhões de definições, com milhões de sinônimos e saídas estratégicas.
Se o amor tivesse sido uma matéria, talvez não existissem abismos, sufocos diários e fotos rasgadas. Se tivesse sido explicado, se o amor tivesse sido desenhado e submetido a análises… Não estaríamos constantemente procurando explicações para seus derivados como a saudade, a decepção, o abandono e o medo. Mas também, quem sabe, se o amor tivesse sido uma matéria escolar, talvez hoje em dia ele não passasse mesmo de um estudo anotado em cadernos.

Camila Heloíse

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