O amor poderia ter sido uma matéria da quinta série. Assim, eu juro, sentaria a bunda na cadeira e estudaria dias a fio, até os dedos ficarem calejados, até gastar todas as canetas do mundo. Me tornaria a primeira da sala, aquela nerd de camiseta larga e calça de moletom, as melhores notas, os melhores trabalhos. Ainda me prestaria a apresentar no final do ano pesquisas sobre o amor, ainda que não me valesse nota alguma. E certamente teria escolhido o amor como faculdade, especialização, mestrado e doutorado. E daria palestras explicando o porquê de cada coisa do amor que nos belisca, machuca, incomoda, tira a fome e que transborda.
Se o amor tivesse sido mesmo uma matéria, assim, com os olhos vidrados na lousa, eu usaria óculos desde os 7 ou 8 anos de idade, de tanto que teria lido sobre ele, do tanto que teria me entregado, da miopia tremenda que teria me atingido. Talvez tivesse renite por respirar muito o pó do giz do professor, talvez tivesse anemia por ter ficado mais tempo estudando do que me alimentando. Talvez não tivesse amigos por me dedicar tanto ao estudo (talvez tivesse um coração inteiro hoje em dia).
Se o amor tivesse sido explicado na escola, talvez eu não tivesse partido tantas vezes meu coração. Se tivesse aprendido as métricas do amor, não permitiria o choro virar soluço, o soluço virar falta de ar, a falta de ar virar falta de esperança e assim vai. Teria medido as menções, teria medido tempo e espaço e as probabilidades daquilo dar certo.
O amor poderia vir em almanaques, poderia existir um dicionário com suas milhões de páginas explicativas, com milhões de definições, com milhões de sinônimos e saídas estratégicas.
Se o amor tivesse sido uma matéria, talvez não existissem abismos, sufocos diários e fotos rasgadas. Se tivesse sido explicado, se o amor tivesse sido desenhado e submetido a análises… Não estaríamos constantemente procurando explicações para seus derivados como a saudade, a decepção, o abandono e o medo. Mas também, quem sabe, se o amor tivesse sido uma matéria escolar, talvez hoje em dia ele não passasse mesmo de um estudo anotado em cadernos.
Camila Heloíse



8 comentários
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29/02/2012 às 4:52 pm
Brunno Lopez
Você sempre tem um jeito açucarado de tratar desse sentimento. Dessa vez, você levou tudo para a escola, os momentos onde todos os conhecimentos nos são injetados…
Amor, a eterna definição. Os que tem não sabem, os que não tem procuram…
Aprender sobre ele deve ser proibido pois não existem regras nem fórmulas, apenas situações. Cada uma com um final, cada roteiro com um diretor.
Mas penso que, se você estudar, ao menos enxergará a essência dele e talvez descobrir passagens secretas que a façam pular paixões e ilusões momentâneas.
29/02/2012 às 5:32 pm
Sandro Ataliba
Se o amor tivesse sido uma matéria, se tivesse sido compreendido e explicado, teria perdido totalmente a graça.
29/02/2012 às 11:46 pm
Tate
Me surpreendendo, como sempre! =)
liiiinda.
01/03/2012 às 11:14 am
Erica Gaião
Cáh!
Acho que em matéria de amor aprendemos um pouco a cada dor que sentimos, quando um amor vai; e desaprendemos o conteúdo todo quando outro vem e começamos tudo de novo. Não tem jeito. Amor é matéria que se aprende na prática. E se desaprende também…
Lindo, como sempre é!
Beijos Amor!
01/03/2012 às 2:09 pm
Guilherme
“Se o Amor é aprendizagem, eu sou o verbo. Se o Amor é lição, sou eu os olhos. Porque amar me cabe, se és tu quem me ensina. Do meu sofrer eu não reprovo mais”.
02/03/2012 às 1:03 am
Alexandre Lúcio Fernandes
A cada dia você escreve mais bonito. A fluidez nas letras demonstra bem o quão de amor se esparrama na tua veia. E este texto então, considero um dos mais lindos que já li por aqui. Ótimo intercalar esta coisa de estudar, de escola com amor. Porque tem momentos em que se isso fosse possível evitaria tantos e desconcertantes problemas que a não compreensão do amor nos traz. Entre dores e alegrias saberíamos agir perante suas adversidades e o que ele nos exige.
De qualquer forma, se fosse assim algo tão objetivo, ele perderia a graça. Amor é uma coisa subjetiva, um sentimento, uma essência, uma energia não palpável. É algo que só se mensura deixando fluir, deixando no peito existir e respirar.
Não se explica, se sente e se vive… E é nas imprevisibilidades de amar que adquirimos as maiores lições.
Beijo meu anjo!
Te adoro!
Saudade!!!
03/03/2012 às 12:24 pm
Yohana Sanfer
Mas sabe…desconfio que de nada adiantaria Camila…o amor me parece parte do grupo de conhecimentos que absorvemos e desaprendemos constantemente…
texto lindo, viu?!
bjs
06/03/2012 às 7:43 pm
Poeta da Colina
Tinha uma série de tv, acho que Max Bickford, sobre um professor de faculdade. O pai dele está no hospital e ele sai correndo da aula, e ao pedir para outra professora que cubra seu horário, para e comenta: “Eu estava na terceira série nunca tinha faltado em uma aula, no intervalo o diretor me chamou, por cinco minutos, quando voltei para aula, eu sabia pelos olhares dos meus colegas que naquele 5 minutos o professor tinha ensinado o segredo da vida, e eu perdi.”